Testosterona em homens sem deficiência: mais risco do que benefício
Dr. Rodrigo Wilson Andrade
CRM 98138
Revisado em 04/04/2026
A expansão do uso de testosterona nas últimas décadas criou um novo cenário clínico: o tratamento de homens sem hipogonadismo verdadeiro, frequentemente motivado por sintomas inespecíficos ou pela busca de níveis considerados "ideais".
Essa prática, embora crescente, não é sustentada por evidência robusta de benefício — e, mais importante, não é isenta de risco. A distinção entre reposição em hipogonadismo confirmado e uso em homens eugonadais não é apenas conceitual, mas fundamental para a segurança clínica.
O que dizem os estudos de maior qualidade
Ensaios clínicos e revisões sistemáticas demonstram que, em homens sem deficiência hormonal clara, os efeitos da terapia com testosterona são limitados.
Uma revisão sistemática da Cochrane (2024) mostrou:
- •Pequenos ganhos na função sexual
- •Ausência de benefício consistente em energia, vitalidade ou cognição
(Cochrane Database, 2024) (Evidência: Alta)
De forma semelhante, o American College of Physicians concluiu que:
- •Os benefícios são modestos e restritos
- •Não há suporte para uso amplo fora de hipogonadismo
(Annals of Internal Medicine, 2020) (Evidência: Alta)
Riscos cardiovasculares: interpretação correta
O estudo TRAVERSE (NEJM, 2023) trouxe dados importantes ao demonstrar que, em homens com hipogonadismo confirmado, a reposição não aumentou eventos cardiovasculares maiores.
(Lincoff et al., NEJM 2023) (Evidência: Alta)
No entanto, há um ponto essencial: esses dados NÃO se aplicam a homens com níveis normais.
Estudos observacionais anteriores sugerem aumento de risco cardiovascular, incluindo:
- •Mortalidade
- •Infarto
- •Acidente vascular cerebral
(HR ~1,29 em coorte de veteranos) (Annals of Internal Medicine data synthesis) (Evidência: Moderada)
Supressão da fertilidade: efeito direto e previsível
A testosterona exógena atua por feedback negativo:
- •Inibe LH
- •Inibe FSH
- •Suprime a função testicular
Isso leva, na maioria dos casos, a:
- •Oligospermia
- •Azoospermia
(AUA/ASRM Guideline 2024) (Evidência: Alta)
Por esse motivo, há uma recomendação clara: testosterona NÃO deve ser prescrita em homens com desejo reprodutivo.
(AUA Guideline) (Recomendação forte)
A recuperação da espermatogênese pode ocorrer após suspensão, mas:
- •Pode levar meses a anos
- •Não é garantida
(Nature Reviews Urology, 2025) (Evidência: Moderada)
Outros efeitos adversos relevantes
A terapia com testosterona está associada a múltiplos riscos adicionais:
- •Policitemia com aumento do risco trombótico
- •Eventos tromboembólicos venosos
- •Elevação do PSA
- •Retenção hídrica e ginecomastia
- •Aumento da pressão arterial
- •Piora ou indução de apneia do sono
(TRAVERSE; ACP Guideline; JAMA Internal Medicine) (Evidência: Moderada a Alta)
Além disso, preparações transdérmicas podem causar transferência inadvertida para terceiros, incluindo crianças e mulheres, com potencial para efeitos adversos não intencionais.
O ponto central: ausência de benefício relevante
Em homens sem hipogonadismo verdadeiro:
- •Não há melhora consistente de energia
- •Não há impacto robusto em humor
- •Não há benefício claro em cognição
(ACP Guideline; Cochrane Review) (Evidência: Alta)
Isso cria um cenário clínico importante: exposição a risco sem ganho proporcional.
O contexto regulatório
A própria FDA estabelece que testosterona é indicada apenas para condições médicas específicas, e não para "queda relacionada à idade".
(FDA Safety Communication)
Recentemente, formulações orais foram aprovadas com restrições explícitas, incluindo alerta para aumento de pressão arterial e ausência de eficácia comprovada em cenários não clássicos.
O crescimento do uso: um fenômeno não fisiológico
O uso de testosterona triplicou nas últimas décadas, em proporção muito superior à prevalência de hipogonadismo verdadeiro.
Isso sugere: expansão baseada mais em demanda do que em evidência.
Integração clínica: o erro de tratar o marcador
Grande parte dos homens tratados apresenta:
- •Sono inadequado
- •Obesidade
- •Estresse crônico
- •Sedentarismo
Nesses casos, a testosterona reduzida é consequência de disfunção sistêmica.
Tratar o hormônio sem tratar a causa leva a dependência terapêutica e persistência do problema de base.
Conclusão
A terapia com testosterona tem papel claro e bem estabelecido no tratamento do hipogonadismo.
Fora desse contexto, sua utilização:
- •Não apresenta benefício consistente
- •Expõe a riscos relevantes
- •Pode desviar o foco da verdadeira causa dos sintomas
A boa prática clínica não busca corrigir números isolados, mas sim compreender o sistema como um todo.
Referências
- • Lincoff AM et al. NEJM 2023 (TRAVERSE)
- • Cochrane Database 2024
- • Annals of Internal Medicine 2020 (ACP Guideline)
- • AUA/ASRM Male Infertility Guideline 2024
- • Nature Reviews Urology 2025
- • JAMA Internal Medicine 2020
Leitura complementar
Testosterona masculina: quando realmente está baixa
Diferenciação entre deficiência hormonal e sintomas inespecíficos.
Quando NÃO tratar testosterona: o risco da medicalização
Critérios apropriados para evitar tratamento desnecessário.
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