Treino em jejum: evidência, benefícios, limites e riscos

Análise científica sobre efeitos na perda de gordura, performance e massa muscular

Dr. Rodrigo Wilson AndradeCRM 98138
Publicado em: 26 de março de 2026Revisão clínica: 26 de março de 2026

O treino em jejum ganhou popularidade nos últimos anos, especialmente associado à perda de gordura e à melhora da "flexibilidade metabólica". A ideia é intuitiva: treinar com baixos níveis de glicogênio aumentaria a utilização de gordura como substrato energético.

No entanto, quando analisado sob a ótica da fisiologia e da literatura científica, os efeitos do treino em jejum são mais dependentes de contexto do que geralmente se supõe.

O que acontece metabolicamente no treino em jejum

Após um período de jejum de 8–12 horas, ocorre redução dos níveis de insulina e aumento relativo de glucagon, catecolaminas e hormônio do crescimento, criando um ambiente favorável à lipólise.

Durante o exercício, há maior mobilização de ácidos graxos livres e aumento da oxidação de gordura (Horowitz et al., 1997; Achten & Jeukendrup, 2004).

Além disso, há maior ativação de vias relacionadas à adaptação metabólica, como AMPK e PGC-1α, que estão associadas à biogênese mitocondrial (Van Proeyen et al., 2011).

No entanto, aumento da oxidação de gordura durante o exercício não necessariamente se traduz em maior perda de gordura corporal ao longo do tempo.

Treino em jejum emagrece mais?

Meta-análises mostram que não há diferença significativa na perda de gordura entre treino em jejum e treino alimentado quando o balanço calórico total é controlado (Schoenfeld et al., 2014; Vieira et al., 2016).

Ou seja, embora o corpo utilize mais gordura durante o exercício em jejum, há compensações metabólicas ao longo do dia, incluindo alterações na oxidação de substratos e ingestão alimentar.

Do ponto de vista clínico, a perda de gordura depende principalmente do déficit calórico sustentado, não do estado alimentar no momento do treino.

Efeitos na performance

A performance depende da disponibilidade energética.

Em exercícios de baixa a moderada intensidade, especialmente aeróbicos, o treino em jejum pode ser bem tolerado.

No entanto, em exercícios de alta intensidade, força ou intervalados, a redução de glicogênio pode comprometer desempenho, potência e volume de treino (Stannard & Thompson, 2008; Impey et al., 2018).

Isso é particularmente relevante em atletas que necessitam de qualidade e intensidade no treinamento.

Adaptações metabólicas: há benefício?

Alguns estudos sugerem que o treino em jejum pode aumentar a eficiência na utilização de gordura e melhorar marcadores de adaptação mitocondrial (Van Proeyen et al., 2011).

Esse conceito está relacionado à chamada "train low strategy" — treinar com baixa disponibilidade de carboidrato para estimular adaptações metabólicas.

No entanto, esses benefícios não são universais e dependem de periodização adequada. Quando aplicado de forma indiscriminada, o treino em jejum pode reduzir qualidade do treino e aumentar risco de overreaching.

Impacto na massa muscular

Um ponto crítico é o impacto sobre a massa magra.

O treino em jejum aumenta a ativação de vias catabólicas, como AMPK, que podem antagonizar a via mTOR responsável pela síntese proteica (Atherton et al., 2005).

Além disso, há aumento da oxidação de aminoácidos durante o exercício prolongado em jejum.

Na prática, isso pode aumentar o risco de perda de massa muscular, especialmente em indivíduos com baixa ingestão proteica ou em déficit calórico agressivo.

Quando pode fazer sentido

O treino em jejum pode ser útil em contextos específicos:

  • Sessões aeróbicas leves a moderadas
  • Estratégias de adaptação metabólica em atletas
  • Indivíduos com boa adaptação ao jejum

Nesses casos, o uso deve ser planejado dentro da periodização do treino e da dieta.

Quando evitar

Não é recomendado:

  • Treinos de força visando hipertrofia
  • Sessões de alta intensidade
  • Indivíduos com risco de hipoglicemia
  • Iniciantes ou indivíduos com baixa reserva energética

Também deve ser evitado em contextos de recuperação inadequada, estresse elevado ou sono insuficiente.

Riscos e limitações

  • Queda de performance
  • Maior percepção de esforço
  • Risco de hipoglicemia em indivíduos suscetíveis
  • Possível aumento de catabolismo muscular

Em longo prazo, uso inadequado pode comprometer adaptação ao treino.

Como aplicar na prática

Se utilizado, o treino em jejum deve seguir algumas diretrizes:

  • Priorizar sessões leves a moderadas
  • Limitar duração (30–60 minutos inicialmente)
  • Garantir adequada ingestão proteica ao longo do dia
  • Evitar em dias de treino intenso

A estratégia mais eficaz continua sendo a periodização nutricional, e não o uso contínuo do jejum.

Conclusão

O treino em jejum não é uma estratégia universal para emagrecimento ou performance.

Ele pode ter papel específico dentro de um contexto bem estruturado, mas não substitui princípios fundamentais como balanço energético, qualidade do treino e recuperação adequada.

Na maioria dos casos, o impacto clínico é menor do que o imaginado — e seu uso indiscriminado pode trazer mais prejuízos do que benefícios.

Perguntas Frequentes

Treinar em jejum emagrece mais?

Não. A perda de gordura depende do déficit calórico total, não do estado alimentar durante o treino.

É melhor para queimar gordura?

Aumenta a queima de gordura durante o exercício, mas não necessariamente no resultado final.

Pode perder massa muscular?

Sim, especialmente se houver déficit calórico e baixa ingestão proteica.

Serve para atletas?

Pode ser útil em estratégias específicas, mas não deve ser rotina.

Posso fazer todo dia?

Não é o ideal. Deve ser usado de forma estratégica.

É seguro?

Em geral sim, mas não para todos os perfis.

Referências

  • Horowitz JF et al. J Appl Physiol, 1997
  • Achten J, Jeukendrup AE. Sports Med, 2004
  • Van Proeyen K et al. J Physiol, 2011
  • Schoenfeld BJ et al. J Int Soc Sports Nutr, 2014
  • Vieira AF et al. Br J Nutr, 2016
  • Stannard SR, Thompson MW. J Appl Physiol, 2008
  • Impey SG et al. Cell Metab, 2018
  • Atherton PJ et al. J Physiol, 2005

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