Urologia Baseada em Evidência

Tansulosina na cólica renal: ajuda ou não a eliminar a pedra?

Dr. Rodrigo Wilson Andrade

CRM 98138

Publicado em: 6 de março de 2026

Revisão clínica: 6 de março de 2026

Introdução

Durante um episódio de cólica renal, uma das perguntas mais frequentes é se existe algum medicamento capaz de ajudar a eliminar o cálculo urinário.

A tansulosina é frequentemente prescrita com esse objetivo. Ela pertence a um grupo de medicamentos chamados bloqueadores alfa-adrenérgicos, utilizados originalmente para tratar sintomas urinários relacionados ao aumento da próstata.

Nos últimos anos, a tansulosina passou a ser utilizada também como chamada terapia expulsiva medicamentosa (Medical Expulsive Therapy – MET), com a proposta de facilitar a passagem de cálculos ureterais.

Entretanto, a real eficácia dessa estratégia tem sido objeto de debate na literatura médica.

Como a tansulosina poderia ajudar

A tansulosina atua relaxando a musculatura lisa do ureter.

O ureter é o canal que conduz a urina do rim até a bexiga. Quando um cálculo fica impactado nesse canal, ocorre aumento da pressão dentro do sistema urinário e surgem os sintomas clássicos da cólica renal.

Ao reduzir o tônus da musculatura ureteral, a tansulosina poderia teoricamente:

  • facilitar a passagem do cálculo
  • reduzir espasmo ureteral
  • diminuir episódios de dor
  • reduzir o tempo até a eliminação da pedra

Esse racional fisiológico levou à investigação da droga em diversos ensaios clínicos.

O que mostram os estudos clínicos

Durante muitos anos, estudos menores sugeriram que bloqueadores alfa poderiam aumentar a taxa de eliminação de cálculos ureterais.

No entanto, estudos mais recentes e de maior qualidade metodológica trouxeram resultados mais complexos.

Um dos trabalhos mais discutidos foi um grande ensaio clínico randomizado publicado no JAMA Internal Medicine, que avaliou mais de 500 pacientes com cálculos ureterais menores que 9 mm.

Nesse estudo, a taxa de eliminação espontânea do cálculo foi semelhante entre os pacientes que receberam tansulosina e aqueles que receberam placebo, sugerindo ausência de benefício global do medicamento nesse grupo de pacientes.

Esses resultados levaram muitos especialistas a questionar o uso rotineiro da tansulosina para todos os casos de cólica renal.

O detalhe importante: tamanho e localização do cálculo

Quando os dados são analisados com mais detalhe, surge um ponto importante.

Meta-análises e revisões sistemáticas mostram que o benefício da tansulosina parece ser maior em cálculos localizados no ureter distal, especialmente quando o tamanho do cálculo é maior que 5 mm.

Nesses casos, alguns estudos demonstram:

  • maior taxa de eliminação espontânea
  • menor tempo até a expulsão do cálculo
  • menor necessidade de intervenção cirúrgica

Por outro lado, para cálculos menores que 5 mm, a maioria das evidências mostra benefício mínimo ou inexistente, pois esses cálculos frequentemente são eliminados espontaneamente sem necessidade de medicação.

Quando a tansulosina pode ser considerada

A tansulosina pode ser considerada principalmente quando:

  • o cálculo está localizado no ureter distal
  • o tamanho do cálculo é maior que 5 mm
  • o paciente está em acompanhamento clínico
  • a estratégia escolhida é tentativa de eliminação espontânea

Em outras palavras, trata-se de uma estratégia utilizada quando se opta inicialmente por manejo conservador, já tendo sido discutida com o paciente a possibilidade de tratamento endoscópico.

Na prática do consultório

Na prática clínica, a decisão de utilizar tansulosina costuma ocorrer em situações muito específicas.

Em muitos casos, quando um cálculo ureteral maior que 5 mm causa sintomas persistentes, a abordagem endoscópica — como a ureteroscopia com laser — pode oferecer uma solução mais previsível e definitiva.

Entretanto, alguns pacientes optam inicialmente por tentar eliminação espontânea, seja por preferência pessoal, seja por circunstâncias clínicas específicas.

Nesses casos selecionados, a tansulosina pode ser utilizada como tentativa de facilitar a passagem do cálculo, sempre com acompanhamento médico adequado.

Pergunta frequente

Tansulosina dissolve a pedra?

Não.

A tansulosina não dissolve o cálculo urinário.

Seu possível efeito está relacionado ao relaxamento da musculatura do ureter, o que pode facilitar a passagem da pedra em alguns casos. O cálculo em si não é dissolvido pelo medicamento.

Conclusão

A tansulosina pode ter papel como terapia expulsiva medicamentosa em casos selecionados, principalmente em cálculos ureterais distais maiores que 5 mm, quando a estratégia inicial é observação clínica com tentativa de eliminação espontânea.

Entretanto, ela não deve ser utilizada de forma automática para qualquer episódio de cólica renal.

Quando existe indicação mais clara de tratamento intervencionista, a abordagem endoscópica costuma representar a opção mais previsível e definitiva. Por esse motivo, o uso da tansulosina deve sempre ser discutido no contexto clínico de cada paciente, levando em conta tamanho e localização do cálculo, sintomas e estratégia terapêutica escolhida.

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Referências Científicas

  1. 1. EAU Guidelines on Urolithiasis
  2. 2. Meltzer AC et al. Effect of Tamsulosin on Passage of Symptomatic Ureteral Stones. JAMA Internal Medicine.
  3. 3. Cui Y et al. Tamsulosin as a Medical Expulsive Therapy for Ureteral Stones. Journal of Urology.
  4. 4. Wang RC et al. Annals of Emergency Medicine.
  5. 5. Yu ZW et al. Medicine.